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O remédio tem nome e chama-se BI

A saúde global caminha rumo ao colapso financeiro. Nos Estados Unidos, segundo estudo do Journal of the American Medical Association, os gastos nessa área chegaram a US$ 3,2 trilhões em 2016, o que é praticamente o dobro do PIB brasileiro. O Brasil, aliás, parece perseguir a mesma rota e consome em torno de 2% de seu PIB somente para custear o tratamento de doenças crônicas, de acordo com indicadores do DataSUS do Ministério da Saúde. Hospitais e prontos-socorros tornam-se um depósito de problemas não resolvidos, recebendo desnecessariamente quem poderia resolver sua simples dor de cabeça por telefone, ao mesmo tempo em que pacientes mais graves permanecem horas à espera de um leito ou intervenção médica.

O mais impressionante, e também alentador diante de tantos desafios na saúde pública brasileira, é saber que algumas soluções estão plenamente acessíveis e atendem pelo nome de tecnologia. Sobram exemplos bem sucedidos de compartilhamento e análise de dados a serviço da gestão da saúde mundo afora.

Uma das mais recentes inovações surgiu ano passado no Reino Unido. Uma startup criou, por meio de um aplicativo no smartphone, a realização de uma consulta médica em vídeo. Caso haja prescrição de receita, ela é direcionada pela internet. Outro bom exemplo do uso da telemedicina desponta em Israel. O Doctome oferta consultas online por videoconferências ou chats de qualquer parte do mundo, 24 horas por dia e de acordo com o idioma do paciente. Um relatório clínico, os eventuais encaminhamentos para o pronto-socorro e prescrições são direcionados eletronicamente ao paciente.

Já no Brasil, a rede de informações de saúde sequer permite estimar o número de internações em hospitais públicos e privados em 2016. Apenas em junho do ano passado, o Sistema Único de Saúde (SUS) iniciou a implementação do Conjunto Mínimo de Dados (CMD), cujo processo se dará gradualmente para substituir nove bases de dados de prontuários ambulatoriais e hospitalares hoje existentes, mas que não conversam entre si.

Os avanços aqui são morosos, mas três casos muito próximos da nossa realidade demonstram o quão acessível pode estar a inovação. A prefeitura do município paulista de Embu das Artes, em parceria com uma indústria farmacêutica, injetou R$ 2,5 milhões na informatização de todas as unidades básicas de saúde locais e integrou os prontuários eletrônicos pela plataforma e-SUS do Ministério da Saúde. A segunda etapa do projeto de parametrização tecnológica incorporará as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).

Por sua vez, o México encontrou na tecnologia uma saída eficiente para reverter limitações como a baixa oferta de médicos por habitante.  A proporção de 1,5 médicos e de 2,1 enfermeiros para cada mil pessoas no país está muito abaixo dos respectivos índices mínimos de 2,9 e 2,1 recomendados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A solução encontrada desde o ano 2000 foi o estabelecimento de um programa pelo qual os pacientes obtêm orientações clínicas por telefone mediante uma mensalidade fixa. Um milhão de famílias já usufruem do sistema e, da média de 90 mil chamadas por mês, 62% são resolvidas por telefone. O acesso remoto tornou-se uma alternativa mais econômica para a população do que a consulta em uma clínica, ao mesmo tempo em que desafoga o atendimento.

Do outro lado do mundo, os indianos também estão utilizando smartphones para acionar assistência médica e de enfermagem via call center. Recebem um diagnóstico por telefone a partir de evidências clínicas e algoritmos e, se necessário, a receita médica é enviada para a farmácia mais próxima de sua residência. Já os registros de serviços de saúde são integrados eletronicamente e estão disponíveis aos pacientes. A iniciativa é determinante para um país superpopuloso e que necessita, com urgência, desafogar a rede pública de saúde.

A despeito de problemas conjunturais, tanto uma cidade da Região Metropolitana de São Paulo como nações emergentes estão buscando soluções efetivas na gestão de saúde em instrumentos e recursos de Business Intelligence (BI). Tais respostas não passam exclusivamente por uma nova diretriz governamental. A iniciativa privada pode e deve dar os primeiros passos rumo à saúde digital.

Um estudo da AxisMed, empresa do grupo Telefónica, junto ao segmento corporativo brasileiro revelou que apenas 15% das companhias avaliadas têm domínio de informações sobre a saúde dos seus funcionários e colaboradores e conseguem adotar programas de gestão. Outras 51% afirmam conhecer a realidade do absenteísmo e custos das doenças que afetam o mundo corporativo, mas têm iniciativas muito incipientes. Finalmente há um grupo de 34% de empresas que não colocaram nenhuma iniciativa em prática.

O simples reconhecimento da relevância de ferramentas de análise e cruzamento de dados já representa uma evolução. Ao se mapear, identificar e rastrear as condições clínicas de cada membro da equipe, seus hábitos e estilo de vida, histórico de internações, exames e consultas, as empresas passam a deter uma ferramenta poderosa para uma gestão de saúde mais assertiva, com benefícios tangíveis, que incluem melhoria da produtividade e expressiva redução dos índices de absenteísmo.

Isto significa menos duplicidade de exames e de visitas recorrentes a pronto-socorros, além de uma integração mais efetiva com centros médicos, clínicas de diagnósticos, consumo de medicamentos, internações hospitalares e bem-estar dos pacientes. Esse rol de profissionais e procedimentos envolvidos constitui parte preponderante no processo de informação, cujo mapeamento se tornará mais dinâmico, eficiente e efetivo frente ao substancial número de pessoas que abandonam tratamentos por custo, desinteresse ou pela ausência de um sistema de acompanhamento e orientação. O poder da informação nas mãos das pessoas aproxima-nos da tão almejada universalização da saúde, aquela mesma que abrange a lista de direitos constitucionais dos brasileiros.

Cesar Rodriguez Dominguez, CEO da AxisMed.